RESENHA │ Anne de Avonlea, Lucy Maud Montgomery

Logo depois de terminar a leitura do primeiro livro eu me joguei direto no segundo, querendo seguir a coleção e saber o destino dos personagens que me apaixonei durante Anne de Green Gables. E, sinceramente, o segundo não é tão bom quanto o primeiro… Ele não é ruim – tanto que devorei no mesmo ritmo – mas o primeiro é melhor desenvolvido e menos repetitivo.

“Existe algo bom em cada pessoa, é só uma questão de saber encontrá-lo.”

No final do primeiro livro acompanhamos a partida de Anne para a faculdade e sua decisão de permanecer em Green Gables para lecionar após o falecimento de Matthew. Então, agora com 17 anos, ela está dando aula na escola onde estudou, e acompanhamos seus dilemas morais perante decisões que precisam ser tomada na vida adulta, e suas dúvidas sobre qual seria a melhor conduta como professora e o que é necessário para educar uma criança. Anne acredita que punição corporal é algo indemissível, e que a bondade e o diálogo são a melhor forma de educar. Contudo, seus princípios são colocados a prova diariamente, e ela tem que se provar a todo momento apta para ocupar aquele espaço.

Assim como em Anne de Green Gables, o segundo livro mostra ainda mais como Anne é uma menina com ideais a frente de seu tempo, principalmente quando diz respeito a figura feminina – e não apenas em comparação com as pessoas mais velhas, mas também entre mulheres da sua idade. Para Anne, os direitos iguais (isso é, lecionar, ter ensino superior, ocupar cargo de professora, etc.) é algo que deveria ser natural. E em mais de um momento todas as ambições de Anne são criticadas e julgadas, por ela ser uma mulher que almeja mais que apenas ser esposa de um homem.

“… Ela respondeu com muita seriedade que, se você é solteira, as pessoas te chama de solteirona, e se é casada, seu marido controla sua vida; porém, se for viúva, você não corre risco nem de uma coisa, nem de outra.”

E na busca incessante de Anne por ‘almas irmãs’, são somados a narrativa novos personagens, que de uma maneira ou de outra marcam a história da protagonista. Como, por exemplo, o pequeno Paul Irving, aluno de Anne, com sua imaginação brilhante e seus “homens de pedra”, é com toda certeza muito interessante de acompanhar. Ele vê a vida de uma maneira única, que lembra muito a própria Anne em seus dias de infância nos quais tudo que é lugar tinha “escopo para imaginação”.

Ainda sobre novos personagens, logo nos primeiros capítulos somos apresentados aos gêmeos, Davy e Dora, que depois da morte de sua mãe, são adotados por Marilla e Anne. No início, achei que ia gostar desses dois novos personagens, afinal, são crianças e durante o primeiro livro acompanhamos um grupo de crianças tão bem desenvolvidos – narrativamente falando.

Contudo, depois de algumas páginas, Dora só se torna uma menina sem graça, que mal aparece na história, e Davy é teimoso e mentiroso – beirando a ser um pouco sádico – o que Anne e Marilla parecem ignorar e, dessa forma, amenizam certas atitudes. Achei um tanto incoerente a forma como, principalmente Marilla lida com as travessuras maldosas dele, Anne eu até entendo ser construída dessa forma, com toda sua doçura e tentativa de ver o melhor em cada um, mas não a Marilla Cuthbert que conhecemos! Acredito que essa tenha sido uma maneira de Montgomery mostrar uma mudança da personagem, agora mais flexível a crianças depois de cuidar de Anne, mas acho que acabou descaracterizando-a.

Anne, por sua vez, simplesmente aceita tudo que o menino faz, apenas o repreendendo – “Davy!” – e muitas vezes penando na hora de ensina-lo, o que me incomodou um pouco na leitura, fazendo com que eu quisesse pular as partes que Davy aparece (ou apenas entrar no livro e sacudir Anne até ela ver realmente o quão problemático é esse menino!). Mas, por outro lado, outro arco narrativo que foi acrescentado nesse segundo livro e que eu achei muito interessante de acompanhar e que de diferentes maneiras engrandeceu a história foi o romance da Senhorita Lavendar.

A personagem é uma mulher de meia idade que ainda não fez as pazes com a velhice. Ela vive presa em seu passado, no qual perdeu o amor de sua vida, e leva a vida tendo sua imaginação como aliada – para muitos leitores essa personagem pode ser considerada um tanto tola, mas que eu acredito que serviu para mostrar a Anne que ela não precisa mudar seu jeito de ser, ela encontrou uma alma irmã que manteve sua essência mesmo na idade avançada, o que Anne achava ser impossível. E, como no mundo de Anne, o destino age sempre a favor dos personagens, gostei muito de acompanhar o desenrolar dos fatos e seu reencontro com seu príncipe encantado.

“Mas há muito tempo Anne havia entendido que, ao vagar pelo reino da fantasia, ela deveria ir sozinha.”

E, agora, sobre a própria Anne, esse segundo livro foca muito no momento de transição entre a criança imaginativa e a adulta responsável, por vezes mostrando a Anne que conhecemos e em outros mostrando a mulher eu ela vai se tornar. Durante Anne de Avonlea, a personagem vai percebendo como, com o passar do tempo, as coisas vão se transformando e aquilo que lhe era familiar, deixa de existir ou muda de forma. O maior exemplo disso – e o maior baque na vida da personagem, que marca essas mudança para vida adulta – é o momento em que sua melhor amida de infância, Diana, fica noiva, e Anne percebe que a partir desse momento, nada será igual.

Durante a narrativa podemos perceber a ambição de Anne em fazer a diferença no mundo a sua maneira, fazendo com que as pessoas se sintam bem ao seu redor, mudar nem que seja uma centelha na vida daqueles com quem cruzar o caminho. Com sua filosofia Anneística de levar a vida, ela tenta ver o melhor do mundo e das pessoas, e quando não é possível ver, bom, é fácil imaginar. Algo que notei é que nesse livro Anne fala bem menos de sua aparência e acho que ela também entendeu, assim como disse a Jane, que o “verdadeiro poema está na alma”, e não em suas sardas e em seu cabelo ruivo (ou melhor, castanho avermelhado).

Por fim, seguindo na mesma vibe do primeiro, o livro traz várias reflexões sobre a forma de levara vida e o que cada um do seu jeito e com sua bagagem tem a acrescentar na narrativa do outro. A história fala sobre ambições, amores, responsabilidades, amizade, e mesmo se passando em tempos longínquos onde charretes e lamparinas ainda eram a última invenção, a essência é atemporal.

“Mas eu adoraria que os outros tivessem momentos mais agradáveis graças a mim… e pequenas alegrias e pensamentos felizes, que nunca existiriam se eu não tivesse nascido.”


Título: Anne de Avonlea
Autora: Lucy Maud Montgomery
Editora: Ciranda Cultural
Ano: 2020
Páginas: 288
Gênero: Romance; Literatura Estrangeira; Ficção; Infantojuvenil
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AVALIAÇÃO:

Avaliação: 3.5 de 5.

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